Arquivo de vestido

Por água abaixo

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 2/dezembro/2013 by Ernesto de Souza

Ainda descalça, ela caminhou até a porta.

Ainda deitado, ele a observava.

Ela parou na porta e ajeitou o vestido.

Ele levantou, caminhou até ela, aguardou ela recolocar seus sapatos de salto alto.

Agora na mesma altura se beijaram.

Agora era o apartamento dele que estava cheio de lembranças.

Caminhou por entre os cômodos, refazendo os passos dela.

Chegou ao banheiro e reparou na pia dois fios de cabelo.

O menor era escuro, e o mais longo loiro.

Abriu a torneira, lavou o rosto.

E ao abrir os olhos ainda conseguiu ver os dois fios de cabelos se entrelaçarem como seus corpos minutos antes, e descerem juntos pelo ralo.

Silencioso

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , on 8/abril/2012 by Ernesto de Souza

O quarto era escuro, mas era possível ver claramente seu sorriso, a luz da lua ou de alguma iluminação artificial.

Ele colocou o indicador em sua testa e correu pelo seu rosto, seus lábios, seu pescoço. Podia ouvir ao longe o eco das batidas do seu coração.

Ele envolveu seus braços naquele corpo frágil que tremia disfarçadamente, a virou e desceu junto com o zíper do vestido, subiu deslizando em suas costas, parou em seu pescoço, a desvirava sem descolar seus lábios da sua pele macia.

Ela deixou seu vestido cair no chão e se deitou, ele tirou a camisa, se aproximou, beijou sua barriga, subiu passando por entre seus seios, e novamente parou em seu pescoço.

Ela moveu as pernas, seu salto alto lhe arranhou levemente, e com as pernas o prendeu e o apertou contra seu corpo, de onde ele nunca deveria ter saído.

No Elevador

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , , , , on 7/março/2012 by Ernesto de Souza

Ele estava sentado em frente ao seu computador, enquanto seu olhar atravessava o monitor seus dedos repousavam imóveis sobre o teclado.

Levantou-se e caminhou até o elevador, mesmo achando que seria melhor pegar o atalho do parapeito do décimo sexto andar.

A porta do elevador ia se fechando lentamente e antes de fechar por completo começou a soar o alarme de incêndio, as pessoas começaram a correr em direção as escadas enquanto o elevador descia.

Onze andares abaixo o elevador para, as portas se abrem, entre as chamas surge uma linda moça, trajando um vestido vermelho, salto alto e cigarro na boca.

Ela entra, as portas do elevador novamente se fecham, a fumaça que acabara de sair da boca dela ainda se dissipava, quando ela o encostou contra a parede e o beijou, e enquanto mordia seus lábios a dor no pescoço fez com que ele desconfiasse que ela havia apagado o cigarro.

Então o elevador despencou no vazio, e som de algo caindo e se espatifando no chão o fez abrir os olhos e olhar para traz, o prédio em chamas, um único sobrevivente, e uma única cicatriz na nuca.

Se eu não consegui dormir, então não pode ser um sonho…

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , , , , on 16/novembro/2011 by Ernesto de Souza

Ele estava sentado na cama, com seus pés descalços tocando o chão frio, os cotovelos apoiados nos joelhos, o cigarro em seus dedos queimava sem ser levado a boca. Na mesa a sua frente o gelo do copo derretia tornando a bebida suave de mais para aquele momento. Ao lado do copo o celular vibrava e o som da vibração sobre a madeira parcialmente destruída por cupins, era uma mórbida trilha sonora.

Abaixo do cabelo despenteado um olhar sem foco, abaixo do olhar sem foco uma boca seca, abaixo da boca seca uma camisa amassada pela tentativa de dormir algumas horas antes.

E quando o cigarro imóvel estava prestes a queimar seus dedos, a porta se abriu, a luz invadiu o quarto ofuscando temporariamente sua visão, o cigarro caiu no chão de madeira já apagado e em cinzas.

A porta se fechou, a escuridão novamente tomou conta do quarto, e quando recuperou sua visão, ele estava deitado em sua cama sendo beijado sem delicadeza, sua camisa amassada agora estava jogada no chão ao lado de um vestido que não estava ali quando ela chegou.

E aquela mistura de beijos e abraços, e o toque da sua pele clara por falta de sol, contrastando com a maciez da pele dela, aquele momento pele com pele, poderia ter passado minutos ou horas, ele nunca saberia precisar.

Ela se levantou, não se vestiu, caminhou até a mesa, pegou a garrafa com o resto da bebida e tomou em apenas um gole, devolveu a garrafa agora vazia e caminhou até a porta.

Com um sorriso tímido no rosto, ele a observava caminhar, e quando saiu do quarto deixando a porta entre aberta, ele sentiu no sangue que seu coração ligeiramente bombeava com menos velocidade que minutos atrás, a certeza de que ela voltaria.