Arquivo para vermelho

Talvez pela última vez…

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on 19/setembro/2012 by Ernesto de Souza

Ela subiu as escadas com a mesma lentidão que o dia se passou, merecia um descanso. Ligou a torneira com a mão direita, enquanto a mão esquerda salpicava sais de banho, lentamente a banheira foi se completando de água e espuma.

Encarou o espelho, no fundo de seus olhos, a última vez que se encarou assim, havia maquiagem borrada e gosto de cinzas.

Despiu-se e admirou seu corpo frente ao espelho, estava contente com ele apesar de “fora dos padrões”, um sorriso, mais uma comprovação de que ela era a exceção á regra.

Vestiu seu roupão, desceu as escadas, agora descalça não ouvia o som do seu salto alto na madeira.

Serviu uma taça de vinho pela metade, descansou a garrafa sobre o balcão, olhou ao redor e não havia louças na pia, outro sorriso, completou a taça com o líquido escarlate.

Subiu novamente as escadas, faltava apenas um detalhe, dentre sua coleção de discos escolheu um com a capa vermelha, colocou-o para tocar e enquanto o cantor balbuciava palavras tristes se despiu de seu roupão, desligou a torneira e mergulhou seu corpo todo até o pescoço dentro da banheira.

Ouviram-se passos na escada, ainda era cedo para ele estar em casa, levantou-se e vestiu seu roupão sem se secar, quando esticou o braço para parar a música a porta do banheiro foi aberta com força, um olhar desconhecido em um rosto familiar, uma arma apontada em sua direção, um estampido e uma marca rubra em seu roupão branco.

Outro mergulho, desta vez involuntário, desta vez a cabeça afunda na água, pequenas bolhas de ar saem de seu nariz, seus olhos se fecham lentamente e a escuridão toma conta.

Os olhos tentam abrir, encontram a resistência da água, instintivamente sua cabeça sai debaixo d’água, sua respiração ofegante tenta repor o oxigênio perdido.

No horário de costume ele chega e a encontra sentada na borda da banheira, com a cara de assustada, pisando em cacos de vidro e com o roupão manchado a altura do coração.

Aproxima-se dela, se abaixa e beija seus lábios frios e úmidos como se fosse a última vez que pudesse tocá-los.

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Revólver

Posted in Poesia with tags , , , , , , on 16/abril/2012 by Ernesto de Souza

Caminhou até o gaveteiro em frente à cama, abriu a última gaveta e tirou uma pequena caixa de madeira. Colocou a caixa sobre a cama e a abriu, o interior da caixa era forrado de veludo vermelho. Tirou de lá um objeto metálico envolvido por uma flanela também vermelha.

Ele tira a flanela, acaricia aquele longo cano, segura pelo cabo e aponta para o espelho, seu reflexo aponta novamente pare ele, mirando em sua testa.

Com o polegar ele faz o tambor rolar, enquanto olha para a culatra, nenhuma câmara vazia, isso não é um jogo.

O tambor para, o cão é acionado com um estalo, agora engatilhada está pronta para o serviço. Ele a levanta e sente a boca do cano gelado na lateral de sua cabeça, o dedo acaricia o gatilho enquanto seu olhar ainda mira o reflexo no espelho.

Ele volta o cão a sua posição de origem, guarda na caixa sem embrulhar na flanela e empurra a caixa para debaixo da cama, ainda não sabe se precisará dela novamente.

No Elevador

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , , , , on 7/março/2012 by Ernesto de Souza

Ele estava sentado em frente ao seu computador, enquanto seu olhar atravessava o monitor seus dedos repousavam imóveis sobre o teclado.

Levantou-se e caminhou até o elevador, mesmo achando que seria melhor pegar o atalho do parapeito do décimo sexto andar.

A porta do elevador ia se fechando lentamente e antes de fechar por completo começou a soar o alarme de incêndio, as pessoas começaram a correr em direção as escadas enquanto o elevador descia.

Onze andares abaixo o elevador para, as portas se abrem, entre as chamas surge uma linda moça, trajando um vestido vermelho, salto alto e cigarro na boca.

Ela entra, as portas do elevador novamente se fecham, a fumaça que acabara de sair da boca dela ainda se dissipava, quando ela o encostou contra a parede e o beijou, e enquanto mordia seus lábios a dor no pescoço fez com que ele desconfiasse que ela havia apagado o cigarro.

Então o elevador despencou no vazio, e som de algo caindo e se espatifando no chão o fez abrir os olhos e olhar para traz, o prédio em chamas, um único sobrevivente, e uma única cicatriz na nuca.

Uma Rosa no Inverno

Posted in Poesia with tags , , , , on 11/fevereiro/2011 by Ernesto de Souza

Linda, mas frágil diriam eles, mas para uma simples e pequena rosa sobreviver sozinha ao rigoroso inverno, esconde dentro de si um sangue forte.