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Sentirei sua falta.

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 6/novembro/2013 by Ernesto de Souza

Sentirei sua falta quando acordar e olhar para o lado vazio da cama;

Sentirei sua falta ao não ter com quem brindar meu café pela manhã;

Sentirei sua falta quando não tiver ninguém para disputar o último bolinho;

Sentirei sua falta quando acontecer algo bom, por não ter com quem dividir;

Sentirei sua falta quando acontecer algo ruim, por não ter a quem pedir colo;

Sentirei sua falta ao poder cantar e desafinar e ninguém pedir para que eu pare;

Sentirei sua falta por deixar ás lágrimas caírem, pois ninguém as enxugará.

Sentirei sua falta.

E ao me encarar no espelho e não ver as marcas de beijos e arranhões lembrarei que as cicatrizes são internas e sentirei ainda mais sua falta.

Jumanji

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 20/setembro/2013 by Ernesto de Souza

A música era boa, mas não vencia o volume dos risos das pessoas que queriam aparecer.

Jogue os dados.

Por entre as pessoas um par de olhos ilumina o caminho, ao lado uma cadeira vazia.

Avance cinco casas.

Sentou, pediu uma bebida.

Avance uma casa.

Aproximou-se e elogiou sua beleza, ela sorriu balançando a cabeça negativamente.

Volte duas casas.

Assopre os dados antes de jogar.

Se me conceder está dança te pago uma bebida. Não é chantagem, é proposta.

Avance três casas.

Durante a dança, sussurrou no ouvido dela o desejo de beijá-la.

Antes de responder a música acabou, trocaram de par.

Passe a vez.

Tentou não perdê-lá de vista por entre os casais rodando.

Volte duas casas.

Voltou para o balcão do bar, onde as bebidas esperavam.

Dado viciado.

Ela voltou, mas não sentou. Disse estar de saída, levou com ela a bebida.

Perde tudo.

Ele observa em cima do balcão, um guardanapo com um telefone.

Continue…

O Cientista

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 26/janeiro/2013 by Ernesto de Souza

Ele estava no vestiário, sentado em um banco de madeira, com as sapatilhas já calçadas, enquanto seu técnico dava as últimas instruções, ele tinha o olhar focado na parede branca a sua frente.

O filho de seu irmão mais velho enfaixava-lhe sua mão esquerda, enquanto ele estendia a mão direita já enfaixada, a palma aberta verificando se estava trêmulo, sentiu o nervosismo correr em suas veias, fechou a mão apertada, olhou para o seu punho, era sua única arma.

Calçaram-lhe as luvas, então começou a aquecer simulando golpes ao vento, quando um baixinho fumando um charuto apareceu na porta do vestiário e disse “agora”.

Vestiu por cima do seu corpo já suado um roupão vermelho de segunda mão e caminhou por entre os corredores, nas suas costas podia-se ler em letras brancas de um bordado novo: “The Scientist“, ganhou este apelido nos treinos pelo modo como ensaiava seus golpes, sabia precisamente quantos graus o cotovelo precisava se inclinar para um perfeito uppercut, ou a parábola que se formava com um cruzado, e pelos óculos de grau que usava fora dos ringues.

Caminhava entre o público que permanecia calado, a música que tocava não tinha sido escolhida para agitar o público e sim para agitar o monstro que vivia dentro dele.

Abaixou-se por entre as cordas e pisou no ringue, levantou os braços, ouviram-se alguns aplausos tímidos, então com a luva direita tocou sua testa, abdômen e ombros simulando o sinal de uma cruz.

Tirou o roupão e revelou seu calção predominante negro como a noite, a exceção era a tarja vermelha na cintura, que salientava até a onde os golpes eram permitidos.

Mas começou a tocar aquela música, a luta ainda não havia começado e ele já sentia o primeiro golpe, o frio na barriga, cerrou os dentes e respirou fundo. Os gritos histéricos e as palmas comprovaram que o dono do cinturão, o campeão mundial caminhava em direção ao ringue.

O rapaz da gravata borboleta anunciava pausadamente esticando a última sílaba de cada palavra e o público ia ao delírio, mas o microfone subiu e o outro rapaz, o das luvas brancas, fez um sinal para que ele caminhasse ao centro do ringue, foi o que ele fez, e após tocar as luvas com o campeão, a mão aberta com a luva branca passou por diante de seus olhos e ouviu-se “lutem”.

Os dois começam se estudando, mas o campeão perdeu a paciência e tentava definir a luta logo, ele conseguiu se esquivar e acertar um ou outro jab, mas que não afastava o campeão, quando ele se deu conta já estava nas cordas, e entre uma esquiva e outra, um soco lhe atinge a boca do estômago, seus joelhos dobram e ele toca o solo com a luva, o campeão se afasta e os dedos da luva se levantam um a um, estava aberta a contagem.

Ainda sentia a dor, mas conseguiu levantar a cabeça e olhar para cima, cinco dedos estavam levantados, então ficou de pé e levantou as luvas mostrando que estava apto para continuar.

O campeão veio babando como um touro, e ele se esquivou como um toureiro, mas foi sua última esquiva, seu jogo de pernas parou de funcionar, o campeão havia descoberto a fórmula secreta do cientista, e os golpes começaram a entrar por entre sua guarda, sentia-se forte o suficiente para aguentar os socos, porém fraco de mais para se esquivar deles.

Quando beijar a lona parecia ser seu destino, ouviu um estalo que significava que o round estava no fim, isto lhe deu um fôlego extra, e conseguiu acertar alguns golpes contundentes no campeão, com o cuidado de não abrir a guarda e não cair, o soar do congo indicou o fim daquele round, faltavam onze.

Sentou no banquinho em seu corner, seu treinador repetia que precisava mudar a estratégia, era a hora do plano b, então cuspiu no balde ao seu lado e se levantou, socou uma luva na outra e caminhou para o centro do ringue, não sabia como sairia dali se carregado nos braços por vencer o campeão ou se carregado nos braços, arrastado por não conseguir caminhar com as próprias pernas, só sabia de uma coisa, não iria desistir, não jogaria a toalha, só desceria dali ao final da luta, mesmo sabendo não ser fácil se manter em pé neste ringue que chamam de vida.