Arquivo para lembrancas

Por água abaixo

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 2/dezembro/2013 by Ernesto de Souza

Ainda descalça, ela caminhou até a porta.

Ainda deitado, ele a observava.

Ela parou na porta e ajeitou o vestido.

Ele levantou, caminhou até ela, aguardou ela recolocar seus sapatos de salto alto.

Agora na mesma altura se beijaram.

Agora era o apartamento dele que estava cheio de lembranças.

Caminhou por entre os cômodos, refazendo os passos dela.

Chegou ao banheiro e reparou na pia dois fios de cabelo.

O menor era escuro, e o mais longo loiro.

Abriu a torneira, lavou o rosto.

E ao abrir os olhos ainda conseguiu ver os dois fios de cabelos se entrelaçarem como seus corpos minutos antes, e descerem juntos pelo ralo.

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Posted in Devaneios with tags , , , , , , , on 17/setembro/2013 by Ernesto de Souza

Ao sair do quarto, reparou ao lado da porta um cesto de lixo transbordando folhas de papel amassadas, pegou uma folha que estava fora do cesto, desamassou, leu, sorriu, dobrou carinhosamente, guardou no bolso de traz da calça jeans. Uma última lembrança.

Os Sofrimentos de Werther

Posted in Citações with tags , , on 27/agosto/2013 by Ernesto de Souza

Como é agradável poder sentir os prazeres simples do homem, que põe na mesa a couve que ele próprio plantou, e não somente saboreia as hortaliças, mas também os dias alegres e as manhãs formosas em que ele as cultivou, as tardes amenas em que  as regou, e mais a alegria com que as viu crescer; – e tudo isso vendo na mesa novamente goza.

Johann Wolfgang Von Goethe

O Cientista

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 26/janeiro/2013 by Ernesto de Souza

Ele estava no vestiário, sentado em um banco de madeira, com as sapatilhas já calçadas, enquanto seu técnico dava as últimas instruções, ele tinha o olhar focado na parede branca a sua frente.

O filho de seu irmão mais velho enfaixava-lhe sua mão esquerda, enquanto ele estendia a mão direita já enfaixada, a palma aberta verificando se estava trêmulo, sentiu o nervosismo correr em suas veias, fechou a mão apertada, olhou para o seu punho, era sua única arma.

Calçaram-lhe as luvas, então começou a aquecer simulando golpes ao vento, quando um baixinho fumando um charuto apareceu na porta do vestiário e disse “agora”.

Vestiu por cima do seu corpo já suado um roupão vermelho de segunda mão e caminhou por entre os corredores, nas suas costas podia-se ler em letras brancas de um bordado novo: “The Scientist“, ganhou este apelido nos treinos pelo modo como ensaiava seus golpes, sabia precisamente quantos graus o cotovelo precisava se inclinar para um perfeito uppercut, ou a parábola que se formava com um cruzado, e pelos óculos de grau que usava fora dos ringues.

Caminhava entre o público que permanecia calado, a música que tocava não tinha sido escolhida para agitar o público e sim para agitar o monstro que vivia dentro dele.

Abaixou-se por entre as cordas e pisou no ringue, levantou os braços, ouviram-se alguns aplausos tímidos, então com a luva direita tocou sua testa, abdômen e ombros simulando o sinal de uma cruz.

Tirou o roupão e revelou seu calção predominante negro como a noite, a exceção era a tarja vermelha na cintura, que salientava até a onde os golpes eram permitidos.

Mas começou a tocar aquela música, a luta ainda não havia começado e ele já sentia o primeiro golpe, o frio na barriga, cerrou os dentes e respirou fundo. Os gritos histéricos e as palmas comprovaram que o dono do cinturão, o campeão mundial caminhava em direção ao ringue.

O rapaz da gravata borboleta anunciava pausadamente esticando a última sílaba de cada palavra e o público ia ao delírio, mas o microfone subiu e o outro rapaz, o das luvas brancas, fez um sinal para que ele caminhasse ao centro do ringue, foi o que ele fez, e após tocar as luvas com o campeão, a mão aberta com a luva branca passou por diante de seus olhos e ouviu-se “lutem”.

Os dois começam se estudando, mas o campeão perdeu a paciência e tentava definir a luta logo, ele conseguiu se esquivar e acertar um ou outro jab, mas que não afastava o campeão, quando ele se deu conta já estava nas cordas, e entre uma esquiva e outra, um soco lhe atinge a boca do estômago, seus joelhos dobram e ele toca o solo com a luva, o campeão se afasta e os dedos da luva se levantam um a um, estava aberta a contagem.

Ainda sentia a dor, mas conseguiu levantar a cabeça e olhar para cima, cinco dedos estavam levantados, então ficou de pé e levantou as luvas mostrando que estava apto para continuar.

O campeão veio babando como um touro, e ele se esquivou como um toureiro, mas foi sua última esquiva, seu jogo de pernas parou de funcionar, o campeão havia descoberto a fórmula secreta do cientista, e os golpes começaram a entrar por entre sua guarda, sentia-se forte o suficiente para aguentar os socos, porém fraco de mais para se esquivar deles.

Quando beijar a lona parecia ser seu destino, ouviu um estalo que significava que o round estava no fim, isto lhe deu um fôlego extra, e conseguiu acertar alguns golpes contundentes no campeão, com o cuidado de não abrir a guarda e não cair, o soar do congo indicou o fim daquele round, faltavam onze.

Sentou no banquinho em seu corner, seu treinador repetia que precisava mudar a estratégia, era a hora do plano b, então cuspiu no balde ao seu lado e se levantou, socou uma luva na outra e caminhou para o centro do ringue, não sabia como sairia dali se carregado nos braços por vencer o campeão ou se carregado nos braços, arrastado por não conseguir caminhar com as próprias pernas, só sabia de uma coisa, não iria desistir, não jogaria a toalha, só desceria dali ao final da luta, mesmo sabendo não ser fácil se manter em pé neste ringue que chamam de vida.

Os Funerais do Coelho Branco

Posted in Citações with tags , , , , , , , , , , on 19/janeiro/2013 by Ernesto de Souza

E se eu disser que eu nunca sei mesmo a direção?

E se eu disser que toda vez que eu achei que ia acertar eu na verdade só arrisquei?

Você ainda ia querer?

Diz.

Eu seria ainda o que sou para você?

E se eu disser que eu nunca soube nada de minha vida, que eu sempre deixei tudo passar por mim e as vezes ia, as vezes não ia, dependendo do gosto do café.

Você ia querer?

Será que ia mesmo?

Nenê Altro

Posted in Devaneios with tags , , on 31/outubro/2011 by Ernesto de Souza

Ela se despediu dele e entrou, foi direto para seu quarto. Deitou-se e apagou a luz, o quarto estava vazio de companhia, mas cheio de lembranças.

A Festa Acabou…

Posted in Poesia with tags , , , , , , , , , , on 18/julho/2011 by Ernesto de Souza

Ele caminhava por uma rua movimentada, muitas pessoas passavam por ele.

Algumas pessoas riam, ele tentava buscar na memória um motivo para sorrir.

– Apenas um, já seria suficiente…

Lembrou de um, não necessariamente que o fizesse sorrir, uma vez uma amiga disse para que quando estivesse triste olhasse para o céu.

Desacreditado arriscou um olhar, mais por impulso do que por curiosidade.

De relance viu um ponto azul no meio da noite.

Parou e voltou a olhar tentando focar a visão.

Por entre os enormes prédios cor de cimento descia um pequeno e frágil balão de aniversário azul.

Como se acabara de ser congelado pelo frio daquela noite, ele ficou ali parado com o pescoço para cima, observando o ponto azul crescer em sua direção.

Ele acompanhou cada movimento, cada rota diferente que o vento o fazia tomar, até esqueceu que todas elas levavam para o mesmo lugar: o chão.

Ele foi abaixando o pescoço e viu o pequeno balão sumir entre as pessoas que caminhavam.

– A inevitável queda…

Mas entre as pessoas ao longe o balão novamente ganha os céus.

E dança majestosamente com vento até novamente aterrissar na calçada.

Agora ele consegue ver o pequeno balão de aniversário azul descansando na calçada.

E dessa vez com o bico do sapato, um senhor idade da inicio a um novo vôo.

– Desistir jamais…

Quando belas moças sorridentes se aproximaram do ponto onde novamente o balão descançava, ele pensou que continuaria a voar, mas estava enganado.

Um estouro surdo ecoou pela rua escura.

Em meio a risadas e conversas na calçada, a morte certa.

Ele abaixou a cabeça e continuou caminhando.

A festa acabou.

Reflexo

Posted in Poesia with tags , , , , on 29/abril/2011 by Ernesto de Souza

Mantinha passos distraídos, não olhava as pessoas nos olhos, a cabeça sempre baixa e o olhar sem atenção.

Então surge a passos rápidos, o mesmo cabelo com fios dourados esvoaçantes, o mesmo olhar debaixo dos óculos, o mesmo sorriso.

Pensei que era ela, mas talvez seja apenas reflexo dos meus pensamentos.

Posted in Devaneios with tags , , on 30/outubro/2010 by Ernesto de Souza

Sempre que fechar os olhos eu estarei com você.

Sintonia.

Posted in Poesia with tags , , , , on 17/agosto/2010 by Ernesto de Souza

Era tarde, ela voltava para casa de ônibus, preferia caminhar na chuva sentindo o gosto das gotas que caiam do céu, mas a distância não permitia.

Estava sozinha, perdida em seus pensamentos, observava a chuva batendo contra o vidro, e por um momento esqueceu-se de tudo, esqueceu até que respirava, lembrou disso quando sua respiração embaçou o vidro e escondeu a chuva.

Inconscientemente usou o vidro como quadro e seus dedos como tinta, escreveu nossos nomes ao lado de uma de suas palavras favoritas: sintonia.

Não muito longe dali ele estava deitado em sua cama sincronizando os pensamentos, resolveu levantar e escrever algum desabafo.

E então pegou uma caneta e uma folha de papel e tendo a chuva como inspiração ele escrevia uma poesia sobre pessoas que se entendem sem usar todas as palavras, sob o título de: sintonia.