Anjo Bêbado

O sinal tocou e o tirou da sua meditação durante a aula de “Teorias…” de alguma coisa, então recolheu seu caderno, que havia apenas rabiscos e desenhos no lugar das anotações da matéria, e saiu da sala caminhando rápido pelos corredores do campus na expectativa de não encontrar com ninguém.

Entrou no ônibus e sentou, pois a viagem era longa, se fosse curta preferiria ficar em pé durante o trajeto, olhou ao redor e havia muitas pessoas em pé, o ônibus estava lotado com exceção ao banco ao seu lado, chegou até a olhar para o chão para verificar se não havia pisado em algum vômito, confirmou que o que afastava as pessoas era apenas sua áurea negativa.

Alguns quilômetros depois o ônibus parou em um ponto e ele sentiu o cheiro azedo de álcool fermentando no estômago e depois transformado em hálito. Olhou na direção a porta e entrava um senhor idoso, moreno, com a barba branca por fazer, um gorro de lã e um olhar baixo, a conclusão de onde ele sentaria não exigiu muito esforço.

Não bastava o cansaço e a sensação de vazio que ele carregava no seu coração, o que fez entender a existência de suicidas, era necessário que um bêbado senta-se ao seu lado e puxasse conversa.

O bêbado perguntou sua data de nascimento, e ele disse o dia e o mês, mas poderia ter dito “semana que vem”, o bêbado se mostrou astrólogo e começou a recitar as qualidades do signo de gêmeos, perguntou o que ele estudava: Administração parece ser algo importante para as pessoas antigas, então o bêbado contou que o pai de seu filho Ivan (em homenagem ao imperador-herdeiro da Rússia Ivanovich, morto pelo próprio pai, o terrível) era do mesmo signo e trabalhava na mesma área: ainda havia uma esperança.

O bêbado afirmou ser músico, e disse que ensinou um amigo geminiano a tocar violão, o qual tocava bem apesar de ser mecanizado e não saber o que fazer sem ter uma partitura na sua frente, e inclusive foi este amigo que conseguiu dinheiro tocando e presenteou o bêbado com seu primeiro violão elétrico.

O bêbado o colocou em xeque ao perguntar do que gostava de fazer, e ele já considerava o bêbado um amigo, e respondeu “teatro”, e o bêbado disse ser responsável pela trilha sonora (ele era músico), de várias peças teatrais de vários teatros da cidade, inclusive do Lala.

Disse que o indicaria, pediu seu telefone, ele hesitou, mas acabou anotando em um pedaço de papel e passando ao bêbado, que logo em seguida desceu, e deve ter perdido o papel ou trocado por pinga porque nunca ninguém ligou, mas aquele anjo bêbado lhe deixou uma lição que ele jamais esquecerá: siga seus sonhos.

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